#Dica de Escrita por Stephen King

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O mestre do terror tem sempre algo bom para acrescentar para aqueles que gostam de escrever. No livro Escuridão total sem estrelas que terminei no sábado (20/08/16) ele encerra com um texto incrível e eu acredito que pode servir para escritores iniciantes e profissionais.

“As histórias neste livro são chocantes. Você pode ter achado difícil lê-las em alguns momentos. Se foi o caso, posso lhe assegurar que também achei difícil escrever as histórias em alguns momentos. Quando as pessoas me perguntam sobre meu trabalho, desenvolvi o hábito de sair pela tangente com piadas e fatos pessoais curiosos (nos quais você não deve confiar totalmente; nunca confie em nada que um escritor de ficção disser sobre si mesmo). É uma forma de fugir do assunto um pouco mais diplomática do que a maneira como meus antepassados ianques poderiam responder a tais questionamentos: Não é da sua conta, camarada. Mas, por trás das piadas, eu levo o que faço muito a sério, é isso desde que escrevi meu primeiro romance, A longa marcha, aos 18 anos.

Não tenho muita paciência com escritores que não levam o trabalho a sério, e nenhuma com aqueles que veem a arte da narrativa de ficção como algo desgastado. Não, ela não está desgastada e não é um jogo literário. É uma das formas vitais pelas quais tentamos compreender nossa vida e o mundo muitas vezes horrível que vemos à nossa volta. É a maneira como respondemos à pergunta: Como uma coisa dessas pode acontecer? As histórias sugerem que às vezes — nem sempre, mas às vezes — há um motivo.

Desde o início — mesmo antes de um jovem que agora mal reconheço começar a escrever A longa marcha no seu alojamento da faculdade — sempre achei que a melhor ficção era tanto propulsora quanto violadora. E acerta você na cara. Às vezes grita na sua cara. Não tenho nenhuma rixa com a ficção literária que fala sobre pessoas incomuns em situações comuns, mas, como leitor e escritor, estou muito mais interessado em pessoas comuns em situações incomuns. Quero provocar uma reação emocional, até mesmo visceral, em meus leitores. Fazê-los pensar enquanto leem não é o meu negócio. Deixo isso em itálico porque, se a história é boa o bastante e os personagens são vividos o bastante, o pensamento vai tomar o lugar da emoção quando a história tiver sido contada e o livro posto de lado (às vezes com alívio). Lembro-me de ler 1984, de George Orwell, aos 13 anos, mais ou menos, com medo, fúria e horror crescentes, virando as páginas com avidez e devorando a história o mais depressa que podia, e o que há de errado com isso? Principalmente já que continuo a pensar sobre isso até hoje quando algum político (estou pensando em Sarah Palin e em seus comentários imorais sobre o “painel da morte”) consegue convencer o público de que o branco na verdade é preto, ou vice-versa.

Eis aqui outra coisa em que acredito: se você vai entra em um lugar muito escuro e sombrio — como a casa de Wilf James no Nebrasca em “1922” —, então deveria levar uma luz bem forte e iluminar tudo em volta. Se você não quer ver, por que em nome de Deus desafiaria a escuridão? O grande escritor naturalista Frank Norris sempre foi um dos meus ídolos literários, e guardo o que ele disse sobre isso na minha cabeça há mais de quarenta anos: Nunca agi de maneira subserviente; nunca tirei meu chapéu só pra agradar nem o estendi para ganhar alguns trocados. Por Deus, eu lhes disse a verdade”.

Você rebate: mas, Steve, você ganhou muito dinheiro ao longo da carreira, e quanto à verdade… Isso não é uma coisa tão certa, não é? Sim, ganhei um bom dinheiro escrevendo minhas histórias, mas o dinheiro foi uma consequência, nunca o objetivo. Escrever ficção por dinheiro é um esforço inútil. E, claro, a verdade está nos olhos de quem vê. Mas, quando se trata de ficção, a única responsabilidade do autor é a de procurar a verdade dentro do próprio coração. Nem sempre será a verdade do leitor ou a verdade do crítico, mas enquanto for a verdade do autor — enquanto ele ou ela não agir de maneira subserviente, nem tirar o chapéu só pra agradar — estará tudo bem. Por escritores que mentem intencionalmente, por aqueles que substituem o comportamento humano inacreditável pelo modo como as pessoas parecem agir de verdade, só sinto desprezo. Escrever mal é mais do que uma questão de sintaxe de merda e falta observação; o ato de escrever mal em geral surge de uma recusa teimosa em contar histórias sobre o que as pessoas na verdade fazem — em encarar o fato, vamos dizer assim, de que assassinos às vezes ajudam velhinhas atravessarem a rua.

Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis. Não falta esperança às pessoas destas histórias, mas elas reconhecem que mesmo as nossas esperanças mais caras (e nossos desejos mais fervorosos em relação às pessoas à nossa volta e à sociedade em que vivemos) às vezes podem ser em vão. Com frequência, até. Mas acho que estas histórias também dizem que a nobreza não reside principalmente no sucesso, mas na tentativa de fazer a coisa certa… e que é quando falhamos, ou nos afastamos deliberadamente do desafio, que o inferno se faz.

“1922” foi inspirado em um livro de não ficção chamado Wisconsin Death Trip (1973), de Michael Lesy, que mostrava fotografias tiradas na pequena cidade de Black River Falls, Wisconsin. Fiquei impressionado pelo isolamento rural dessas fotografias e pela severidade e pela privação no rosto das pessoas. Eu queria conseguir passar essa sensação com a minha história.

Em 2007, enquanto viajava pela Interestadual 84 para uma sessão de autógrafos no oeste de Massachussets, passei por uma dessas paradas de estrada para uma típica refeição saudável de Steve King: um refrigerante e uma barra de chocolate. Quando saī da lanchonete, vi uma mulher com o pneu furado tendo uma conversa ávida com um caminhoneiro estacionado na vaga ao lado. Ele sorrir para ela e saiu da cabine.

— Precisa de ajuda? — perguntei.

— Não, não, eu cuido disso. — disse o caminhoneiro.

A moça conseguiu que trocassem seu pneu furado, tenho certeza. E eu consegui minha barra de chocolate e a ideia para uma história que acabou se tornando “Gigante no volante”.

Em Bangor, onde moro, uma via pública chamada extensão da rua Hammond margeia o aeroporto. Caminho 5 ou 6 quilômetros por dia e, quando estou na cidade, normalmente vou por ali. Há uma área de cascalho ao lado do aeroporto, na metade da extensão, onde vários vendedores de beira de estrada vêm montando suas barraquinhas ao longo dos anos. O meu vendedor preferido é conhecido por lá como O Cara da Bola de Golfe, e ele sempre aparece na primavera. O Cara da Bola de Golfe vai até o Campo de Golfe Municipal de Bangor quando o tempo esquenta e cata centenas de bolas de golfe usadas que ficaram abandonadas sob a neve. Ele joga fora as que estão muito ruins e vende o restante nessa área próxima à extensão (o para-brisa de seu carro é todo enfeitado com bolas de golfe — uma decoração genial). Um dia, enquanto eu o observava, a ideia de “Extensão Justa” veio à minha mente. É claro que a ambientei em Derry, lar do falecido e não lamentado palhaço Pennywise, porque Derry é simplesmente Bangor disfarçada de outro nome.

A última história veio à minha cabeça depois de ler um artigo sobre Dennis Rader, o infame assassino BTK (do inglês bind, torture and kill: amarrar, torturar e matar) que tirou a vida de dez pessoas — a maioria mulheres, mas duas eram crianças — em um período de cerca de 16 anos. Em muitos casos, ele enviava documentos de suas vítimas para a polícia. Paula Rader foi casada com esse monstro por 34 anos, e muitas pessoas na área de Wichita, onde Rader cometia seus crimes, se recusavam a acreditar que ela vivia com ele sem saber o que ele fazia. Eu acreditei — e acredito — que foi possível, e escrevi essa história para explorar o que poderia acontecer se essa mulher de repente descobrisse o horrível passatempo do marido. Também escrevi para explorar a ideia de que é impossível conhecer alguém completamente, até mesmo aqueles que mais amamos.

Tudo bem, acho que já ficamos aqui embaixo na escuridão por muito tempo. Há todo um outro mundo lá em cima. Pegue minha mão, fiel leitor, e ficarei feliz em levá-lo de volta à luz do sol. Estou feliz em ir pra lá porque acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou.

É quanto a você que não tenho tanta certeza.”

Stephen King
Bangor, Maine
23 de dezembro de 2009

 

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