Momento de Sanidade

velho_homem_900x600_lead[5]Caminhava lentamente entre as pessoas, murmurava coisas ininteligíveis, rezas, alguma ladainha. Trajava uma túnica preta, os pés descalços. Esbarrou, de propósito, em um menino que estava em uma cadeira de rodas, fazendo-o cair.
– O que você fez? – gritou a mãe desesperada.
O velho abaixou-se, ignorando a mulher, e sussurrou no ouvido do menino:


– Faço minhas as palavras de Jesus: levanta-te, toma tua cadeira e anda – antes que o garoto pudesse responder e levantar, ele completou: – Vai ser o jogador de futebol que sempre quis, mas lembre-se, com o dinheiro que ganhares, tu irás ajudar as pessoas que se encontram em situação semelhante à tua.
O garoto, sem muita confiança no que o senhor tinha dito, colocou-se de pé e, como um milagre, caminhou normalmente. Ele sorriu para o velho, lágrimas de alegria escorriam pela face.
– Obrigado, senhor. Ajudarei quem precisar – com a voz embargada, mal contendo a felicidade de poder andar, o menino abraçou a mãe.
– SALVADOR! SALVADOR! É o Messias, é o filho de Deus, desceu de novo a terra para arrebatar aqueles que se entregarem a Ele – ela gritou apontando para o velho que se misturou na multidão confusa.
Ele continuou com sua caminhada lenta pelo vasto corredor, lotado de gente, daquele hospital público sem grandes recursos para tratar a todos. Encostou a mão nas costas de uma moça que mal se aguentava em pé, tamanha a dor que o câncer lhe causava. Nesse momento, a dor sumiu, ela nada mais sentia.
– Vai cuidar de tua filha pequena e de teu marido que te aguardam em casa. Estás curada, não há mais com que te preocupar.
– Obrigada, senhor, mas não tenho como pagar pelo que me fez – as lágrimas escorriam por sua face.
– Não precisa pagar, apenas cumpra sua missão, crie sua filha para que seja uma grande médica e ajude a quem necessitar.
A mulher assentiu, seu ser se enchia de alegria, mas era discreta demais para causar alvoroço. Ela saiu da fila e seguiu para a casa.
– O que tá acontecendo? O que você fez para o paralítico andar? – quis saber um homenzarrão que carregava sua mãe debilitada numa cadeira de rodas. – Cure minha mãe também! – exigiu como se o velho tivesse obrigação de algo.
– Ela cumpriu a missão que lhe foi designada, criou os filhos, foi uma ótima mãe e mulher para seu pai. Agora, o que ela necessita é descansar em paz, mas não sou eu quem determina quando ela vai falecer, só sei que ainda terá tempo para se despedir dos filhos e dos netos. Leve-a pra casa porque neste hospital precário não encontrarás a cura, a doença já está num nível muito avançado.
– Como pode falar uma merda dessas da minha mãe? – o homem se irritou. – como pode saber que a doença está tão avançada que não possa ser curada? Quem é você? Deus? Médico, caralho? Não, daqui não saio e você vai curá-la, cacete, ou te encho de bolacha.
O velho lhe deu as costas e o deixou a reclamar, enquanto continuava sua caminhada até o fim do corredor, onde possuía uma escada que levava a uma ala isolada para pacientes com doenças contagiosas. Nesse percurso curou mais algumas pessoas e tirou a vida de outras, deixando os enfermeiros ocupados. Abriu a porta e antes que dois deles pudessem agarrá-lo, ele fechou-a. Os dois funcionários aplicaram toda a força que possuíam, mas o trinco da porta nem se mexia, era como se uma força sobrenatural a emperrasse. Calmamente, ele desceu e foi para a direita, um longo corredor cheio de quartos com pacientes que certamente não voltariam curados.
Ele entrou no quarto setenta e sete, onde tinha uma jovem com tuberculose. A doença estava acelerada e ela morreria logo.
– O que o senhor faz aqui sem proteção? O senhor vai pegar minha doença e ficar como eu – ela falou com a voz rouca.
– Nada acontecerá comigo, não te preocupes.
– Eu sei que não devo durar muito, diga apenas à minha família que eu os amo muito e que, onde eu estiver nunca irei esquecê-los.
– Acalma-te, minha filha, tu ajudaste alguém que hoje está curado, não é justo que partas assim – dizendo isso ele passou a mão por debaixo de suas costas, tocando-lhe a região dos pulmões. Toda sensação ruim que a doença lhe causava desapareceu, feito mágica. – estás curada e imune a qualquer doença que tenhas aqui, não deixarei que pegues mais nada.
Lágrimas saltaram dos olhos da mulher.
– O senhor é um anjo de Deus?
– Prefiro que penses assim – ele sorriu dando um abraço na garota.
– Obrigada, muito obrigada – ela falava com a voz embargada pelo choro. – o senhor não pode curar os outros também? – perguntou após se separarem.
– Eu não tenho a permissão para curá-los – ao dizer isso, olhou ao redor e sombras horripilantes, que só o velho via, abraçaram os pacientes.

– Meeeeeeu, só meeeeeu – as sombras repetiam como ecos de mau agouro.

Essa visão não durou muito, um minuto ou dois depois, sumiram e o homem virou-se para a moça.

– Vamos, sua família está te esperando.

Ela se trocou no banheiro do quarto e juntos subiram de volta. A mulher, o marido e a filha foram embora. Enquanto o velho acenava para a menininha, foi agarrado por dois enfermeiros que o levaram de volta ao quarto 1313 da ala de psiquiatria.

Autora: Milly

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