Verde como o céu

Ontem quando ouvi a porta bater, sabia que algo estava errado. Caio era demasiado calmo para provocar furacões. Pensei em estabelecer diálogo de imediato, mas depois de uma pausa, julguei ser melhor esperar. O tique taque do relógio costuma ser um grande conselheiro, como se a cada segundo vivido, despertasse em nós uma gota extra de sensatez. A fúria sempre pareceu-me um rato, arma-se em gigante quando corre por um pedaço de queijo, mas desmancha-se em fragilidade quando apanhada na ratoeira. Esperar, no entanto, nem sempre se rebenta em sabedoria. Há quem passe toda a vida à espera enquanto tornamo-nos apenas mais novos para a morte. Morri com Caio naquele dia.

Deixei a sala em busca de uma resposta. Empurrei a porta lentamente e encontrei o mais vago dos quartos. Apenas a cama bagunçada, propositadamente desarrumada, numa filosofia inventada numa tarde de domingo. Caio e eu estávamos convencidos de que a bagunça andava de mãos dadas com a criatividade e, já há alguns meses, proibimos um ao outro de ajeitar os lençóis. As marcas de uma noite bem dormida é o acalanto da alma, sonhamos. Mas o vazio do quarto preencheu-me como a água ao mundo. Naquele instante, foi o ar que me respirou e não o contrário. Num sôfrego desespero, olhei pela janela do nosso décimo andar e os olhos apenas me calaram. Lá embaixo, a vida transcorria na loucura de sempre. Miúdos a brincar no playground, mulheres a embalar seus bebês. Carros a sair e entrar. A vida de uma janela de apartamento é algo insustentavelmente estável.

Deixando o quarto onde não havia nenhum vestígio, percorri todo o apartamento. Apesar da curta distância entre a sala e a cozinha, a lavanderia e o banheiro, demorei toda uma vida a encontrá-lo. Não obtive êxito. O jogo de se esconder é das maiores armadilhas da vida. Desde cedo, aliás, carrego um trauma, fruto de ouvir da minha avó a história de uma mulher que ao se esconder em pensamentos, perdeu-se, e nunca mais voltou pra casa. Prometi a mim mesma que sempre me refugiaria na verdade, sem jamais omitir a menor das narrativas a se debruçar nas minhas estrelas cinzentas. Têm sido anos de grande luta.

Do sofá, ouvi a campainha. Estou certa de ter mantido o controle da situação, mas a minha vizinha vinha a me socorrer, como se eu necessitasse de salvação. Quis não abrir a porta, mas o fiz. Notei nela um olhar de pena, leviano. Pobrezinha, também a ela deve ser caro isto de manter as aparências, num mundo imaginado. Um dia devo contar-lhe sobre a mulher de que falou a minha avó, assim ela poderá salvar-se dessa irrealidade em que vive e que nem ao menos consegue disfarçar.  A verdade é uma realidade que custa. É preciso estar de olhos bem fechados para vivenciá-la.

Fez questão de me abraçar, limpar as lágrimas – bem, não estou muito certa de que havia lágrimas. Consolou-me, enfim. Expliquei-lhe que tudo estava sob controle. Ouvira a porta bater, senti que o Caio estava irritado, fui em busca dele, mas nada. A porta, afinal, bateu-se para fora e não para dentro, como havia suposto. Há portas que nunca deveriam ser fechadas, nem sequer, deveriam ter sido inventadas. Fechamos os caminhos e depois culpamo-nos por não encontrar as saídas. Deve ter sido isso que aconteceu ao Caio, abriu a porta. O vento a bateu. Nós somos um casal assim, com uma filosofia libertária. O andar é para fora. A esta altura, Joana, minha vizinha, estava com um olhar ainda mais desolado. Senti que algo estava a correr muito mal. Não demorou muito para que aparecessem os senhores de branco que me conduziram até este lugar onde agora me encontro.

Aqui tenho muito tempo disponível para pensar. Seria bom que outras pessoas tivessem a mesma oportunidade. As portas também nem sempre estão abertas e, mesmo assim, entra mais gente do que se sai. O Caio ainda não deu notícias. Outro dia terminou sem a sua visita e todos se recusam a falar dele. Aproveitei o banho de sol para olhar o céu. É verde. Reluzente. Infinito. Quando assim o retratei numa aula de desenho, fui duramente repreendida pela professora de artes. É azul que deve ser – insistia ela. Coitada. Há gente que olha e não vê. Há tanta gente, mas tão poucos olhos. Sou uma felizarda. Amanhã, tenho certeza, o Caio virá.

Autor: Iago Algodão – vencedor do segundo desafio realizado pelo perfil Contadores de Histórias no Recanto das Letras.

Perfil do autor no Recanto das Letras: http://www.recantodasletras.com.br/autores/freiresle

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